quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Estamos a morrer

na boca um do outro

por isso è que nos desfazemos

no arco do verão , no pensamento

da brisa , no sorriso , no peixe , no

cubo , no linho , no mosto aberto


- no amor mais terrível que a vida
 

Beijo o degrau


 e o espaço o meu desejo traz o perfume da tua noite

murmuro os teus cabelos e o teu ventre , ò mais nua


e branca das mulheres correm em mim o lacre e a cânfora ,

descubro tuas mãos , ergue - se tua boca ao círculo do meu


ardente pensamento onde està o mar ? aves bêbadas e puras

que voam sobre o teu sorriso imenso em cada espasmo eu

morrerei contigo


In Herberto  Helder

Peço ao vento ;

traz do espaço a luz inocente dos urzes , um silêncio ,

uma palavra ; traz da montanha um pássaro de resina ,


uma lua vermelha oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos , casa de madeira do planalto ,


rios imaginados . espadas , superstições , cânticos , coisas maravilhosas da  noite ò meu amor em cada

espasmo morrerei contigo .


In Herberto Helder

 

De meu recente coração

a vida inteira sobe , o povo renasce , o tempo

ganha a alma o meu desejo devora a flor do


vinho , envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculo

e crateras ò pensador Carola de ninho , mulher que a fome


encanta pela noite equilibrada , imponderável - em cada espanto

eu morrerei contigo


In Herberto Helder
 

à alegria diurna

descerro as mãos perde - se entre as nuvens

e o arbusto   o cheiro acre e puro da tua entrega


bichos inclinam - se para dentro do sono , levantam - se rosas respirando contra o ar a tua voz canta o horto


e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo beijarei em ti a vida enorme , e

em cada espasmo eu morrerei contigo


In  Herberto Helder
 

Dai - me uma mulher tão nova como a resina

e o cheiro da terra . Com uma flecha em meu flanco , cantarei .

E enquanto manar da minha carne uma videira de carne uma


videira de sangue , cantarei seu sorriso ardendo suas mamas

de pura substância , a curva quente dos cabelos , beberei sua 


boca para depois cantar a morte e a alegria da morte .


In Herberto  Helder
 

Cantar ?

Longamente cantar , uma mulher com quem beber e morrer , quando fora se abrir o instinto da noite e uma


ave atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas - seu corpo arderá imensamente sobre os meus olhos palpitantes


Ele imagem vertiginosa e  alta de um certo pensamento de alegria e de impudor


Seu corpo arderá para mim sobre um lençol

mordido por flores com água


In Herberto Helder
 

Estamos a morrer

na boca um do outro por isso è que nos desfazemos no arco do verão , no pensamento da brisa , no sorriso , no peixe , no cubo , no linho , n...