por isso è que nos desfazemos
no arco do verão , no pensamento
da brisa , no sorriso , no peixe , no
cubo , no linho , no mosto aberto
- no amor mais terrível que a vida
por isso è que nos desfazemos
no arco do verão , no pensamento
da brisa , no sorriso , no peixe , no
cubo , no linho , no mosto aberto
- no amor mais terrível que a vida
murmuro os teus cabelos e o teu ventre , ò mais nua
e branca das mulheres correm em mim o lacre e a cânfora ,
descubro tuas mãos , ergue - se tua boca ao círculo do meu
ardente pensamento onde està o mar ? aves bêbadas e puras
que voam sobre o teu sorriso imenso em cada espasmo eu
morrerei contigo
In Herberto Helder
uma palavra ; traz da montanha um pássaro de resina ,
uma lua vermelha oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos , casa de madeira do planalto ,
rios imaginados . espadas , superstições , cânticos , coisas maravilhosas da noite ò meu amor em cada
espasmo morrerei contigo .
In Herberto Helder
ganha a alma o meu desejo devora a flor do
vinho , envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculo
e crateras ò pensador Carola de ninho , mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada , imponderável - em cada espanto
eu morrerei contigo
In Herberto Helder
e o arbusto o cheiro acre e puro da tua entrega
bichos inclinam - se para dentro do sono , levantam - se rosas respirando contra o ar a tua voz canta o horto
e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo beijarei em ti a vida enorme , e
em cada espasmo eu morrerei contigo
In Herberto Helder
E enquanto manar da minha carne uma videira de carne uma
videira de sangue , cantarei seu sorriso ardendo suas mamas
de pura substância , a curva quente dos cabelos , beberei sua
boca para depois cantar a morte e a alegria da morte .
In Herberto Helder
ave atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas - seu corpo arderá imensamente sobre os meus olhos palpitantes
Ele imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento de alegria e de impudor
Seu corpo arderá para mim sobre um lençol
mordido por flores com água
In Herberto Helder
com ela cantarei a noite , dai - me uma folha viva
de erva , uma mulher seus ombros beijarei , a pedra
do pequeno sorriso de um momento mulher quase
incrida , mas com gravidade de dois seios , com peso
lùbico e triste da boca seus ombros beijarei
In Herberto Helder
mimoso leito de flores .
mimoso lânguidos ais !
vergônteas débil ainda ,
tremia !
lua tão linda , lembra - me
ainda ... jamais !
aquela dália mimosa , aquele
botão de rosa dos lábios dela ... Senhor !
murcham ; mas como a lua , passava a nuvem :
« Sou teu » !
reverdiciam de amor !
e aquela estátua de neve como è que o fogo conteve
que não a vi descoalhar ?
ondas de fogo uma a uma naquele peito de espuma
eram as ondas do mar !
como os seus olhos me olhavam , como nos olhos se apagam ,
e se acendiam depois !
como è que ali confundidas se não trocaram as vidas e os corações
de nòs dois !
mimosas noites de amores , mimoso leito de flores , mimoso lânguidos
ais !
vergôntea débil ainda , tremia ! lua tão linda , lebra - me ainda ... já mais !
In João Deus
não a temos perdida por silêncio
e por renúncia atè a voz do mar
se torna exílio e a luz que nos rodeia
è como grades
In Sophia Andresen
onde os gestos embarram
ao longo do ano .
De um amor morto
não fica nenhuma memória
o passado se rende o presente
o devora e os navios do tempo
agudos e leves os levam embora
Pois um amor morto não deixa em nòs
um retrato de infinita demora è apenas
um facto que a eternidade ignora
In Sophia Andersen
tem a nítida esquadria
de um Mantegna
porém com um Picasso de repente
desloca o visual
seu torso lembra o respirar
da vela seu corpo è solar
e frontal sua beleza à força de ser bela
promete mais do que prazer promete
um mundo mais inteiro e mais real
como pàtria do ser
IN Sophia Andresen
o dinheiro cheira a podre e cheira a roupa
do seu corpo aquela roupa que depois da chuva
secou sobre o corpo porque não tinha outra
o dinheiro cheira a podre e cheira a roupa que depois
do suor não foi lavada porque não tinha outra
« Ganharás o suor dos outros ganharás o pão »
ò vendilhões do templo
Ò construtores de grandes estátuas balofas e pesadas
Ò cheios de devoção e de proveito perdoai - lhes Senhor
porque eles sabem o que fazem
continuará o jardim , o céu e o mar ,
e como hoje hão - de bailar as quatro
estações a minha porta .
Outros em Abril passarão no pomar
em que eu tantas vezes passei
haverá longos poentes sobre o mar ,
outros amarão as coisas que eu amei
será o melhor brilho a mesma festa ,
será o mesmo jardim à minha porta ,
e os cabelos doirados da floresta ,
como se eu não estivesse morto .
In Sophia Andresen
com teus cabelos
espantado meu olhar
com os teus cavalos
e grandes praias fluídas
avenidas tardes oscilam demoradas
e um confuso rumor de obscuras vidas
e o tempo sentado no limiar dos campos
em seu fuso sua faca seus novelos em
vão busquei eterna luz precisa
Sophia de Mello Breyner Andresen
In Obra Poética
das palavras pois è preciso saber que a
palavra è sagrada que de longe muito longe
um povo a trouxe e nela pôs a sua alma confiada
de longe muito longe desde o inicio o homem soube
de si pela palavra e nomeou a pedra a flor a água e
tudo emergiu porque ele disse com fúria e raiva acuso
o demagogo que se promove à sombra da palavra e da
palavra faz poder e jogo e transforma as palavras em moeda
como se fez com o trigo e com a terra
In Sophia Andresen
mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece onde tudo
nos mente e nos separa
que nenhuma estrela queime o teu perfil
que nenhum deus se lembre do teu nome
que nem o vento passe onde tu passas
para ti eu criei um dia puro livre como
o vento e repetido como o florir das ondas
ordenadas
Shophia de Mello Breyner Andresen
In Obra Poética
embarco a vida
no pensamento ,
busco a alvorada
do sonho isento ,
puro e sem nada ,
- rosa encarnada
intacta ao vento
noite perdida ,
noite encontrada ,
morta , vivida e ressuscitada ...
( asas da lua quase parada , mostra - me
a sua sombra escondida , que continua
na minha vida num chão profundo ! raiz prendida a um outro mundo . )
rosa encarnada do sonho isento , muda a alvorada que o pensamento deixa
confiada ao tempo lento ... minha partida , minha chegada , è tudo vento ..
ai da alvorada ! noite passada , noite encontrada ...
In Cecìlia Meireles
poder dormir e acordar relaxado e sentir o esplendor
do céu e beijar as estrelas sem barreiras sem ter que
pensar em mais nada nem em mais ninguém com
a nossa mente livre liberta para amar intensamente
a quem nos mereça sem restrições sentindo o amor
nas nossas entranhas com fervor não pensar em mais ninguém para além de nòs próprios a dedicação total a pessoa amada na
essência do próprio amor que sossego poder acordar viver e morrer
em paz em harmonia com o universo sendo nòs próprios o nosso Deus !
fausto fonseca
poetzi 0 . blogspot.com
In Palavreado
às catedrais do puro gesto com o grito e as aves matinais
dentro das silabas ao breve cume da espuma mãos nas mãos
chegarei com as espadas areia verde dò planície ao tutano
meu amor da fome com os frutos nos teus olhos amante vento
à espera ao sexo nuclear do mundo nervo a água chegarei chegarei
nas manhãs suadas da voz meu amor liberta à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito ou sò marítimo eco à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei chegarei ao pè do silêncio que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados contigo ao principio chegarei
In Luís Carlos Patraquim
e a polpa verde - escura , húmida ou queda arborizando - se
dentro dos ossos , te envolva , como estirada jaz a pele da infância
In Luís Carlos Patraquim
na imponderável noite e nada espreita
a estrada longa fonte de olhar principia
como um homem multidões ao vento
a terra enxague o grito arável
In Luis Carlos Patraquim
que se viajam e são insistentes
desejos a lucilar sobre a pele
morena de girassòis filtrando
teu rosto seios paisagem nua de
ventre com palavras a voz do que
faço estes dias infensos
In Luis Carlos Patraquim
para os meridianos virgens do eu rosto no vento
a densidade da boca
In Luís Carlos Patraquim
Poeta das vozes mais inovadoras
da poesia Moçambicana
Europutas de meio que me dàs ao muito que não dou mas que sempre
conservo entre as coisas mais puras de uma Genebra a mais num bar de
Amesterdão e não perder o pè numa praia da Grécia de tantas mãos que nos
passam pelas mãos e tão poucas que são as que nunca se esquecem de ter visto
o começo e o fim da Via Àpia de ter atravessado o muro de Berlim de outros
muros que não aparecem no mapa de outros muros que sò aparecem aqui ao barro deste céu que te molesta os ombros ao sopro deste céu que vem ao nosso encontro quando sabe que nòs precisamos dele de pertinaz presença
e da longevidade do corvo do chacal do louco do Eunuco ao rouxinol que morre
em plena madrugada à rosa que adormece em caules de um minuto de que foi noutro
tempo a saúde no campo à lepra que nos ròi a paisagem bucólica do tempo ao coração
minado pelo cancro dos rins ao infinito incubado na cólera do tempo ao coração mas
com pausa na pele como « Roma by night » entre dois aviões como passar o verão num
vegetal aberta como dizer que não que já não somos dois dos rins ao infinito a este que
não outro ao que rola nos rins ao que vai rebentar - te na câmara blindada e nocturna do
ùtero e nos transfere o fim para um pouco mais tarde da curva de entretanto à entrada do
poço soletrar em mim a ler nas tuas mãos como è rápido lento recto e sinuoso o percurso
que vai do tempo ao coração
IN David Mourão Ferreira
nòs dois , parados de mãos dadas ... como podem
sò dois governar um navio ? melhor è desistir e não
fazer nada ! se um gesto sequer , de sùbito esculpidos,
tornamo - nos reais , e de madeira , à proa ... que figuras de lenda ! olhos vagos perdidos ... por entre
nossas mãos , o verde mar se ecoa ... aparentes senhores
de um barco abandonado nòs olhamos , sem ver a longínqua
miragem ... aonde iremos ter ? com os frutos e pecado se justifica ,
enflora , a secreta viagem ! agora sei que ès tu quem me fora indicada
o resto passa , passa alheio nos meus sentidos desfeitos num rochedo
ou salvos na enseada , a eternidade è nossa , em madeira esculpidos !
In David Mourão Ferreira
a minha vida nem consente rumor de gente
na praia desolada
apenas decisão de esquecimento ;
mas sò neste momento eu a descobri
como um fruto rubro de quem sem
sabe - lo , me sustento
In David Mourão Ferreira
Que lívido museu ! velado sepulcral
ai quem se atreve a mostrar bem o rosto !
um hálito de medo embaciado o vidro
dà - nos um ar de fantasmas ou fetos
na saliente armadura , ninguém sonha sequer
sonhos completos tão mal consegue o luar insinuar - se
em nòs que a própria voz do mar segue o risco de um
disco ... não cessa de tocar , não cessa a sua voz mas ninguém
pretende experimentar o risco !
In David Mourão Ferreira
resta ainda tudo , sò não podemos ser
talvez o amor , neste tempo seja ainda cedo
não è este sossego que eu queria ,
este exílio de tudo , esta solidão de todos
agora não resta de mim o que seja meu
e quando tendo o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
nenhuma palavra alcança o mundo , eu sei
ainda assim escrevo
In Mia Couto
pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem sò quando os perdia
fui ficando por umbrais a quem do passo
que ousei e vi a árvore morta e sube que
mentia
In Mia Couto
o silêncio abre os panos escuros
e as coisas escorrem por óleo escuro
e espesso
Esta deveria ser a hora em que me recolheria
como um poente no bater do teu peito mas a
solidão entra pelos meus vidros e nas suas enlutadas
mãos solto o meu delírio
è então que surges com os teus passos de menina
os teus sonhos arrumados com duas tranças nas costas
guiando - me por um corredor infinito e regressas aos espelhos
onde a vida te encarou mas os ruídos da noite trazem sua esponja
silenciosa e sem luz e sem tinta o meu sonho resigna longe os homens
afundam - se com o caju que fermenta e a onda da madrugada demora - se
de encontro às rochas do tempo
In Mia Couto
o tormento da hora cindida na desordem
do sangue a aventura de sermos nòs restitui - mos
ao ser que fazemos de conta que somos
In Mia Couto
não mais que areia de um chão
sem cio .
Quando sonhei ser pano fui agulha .
E morri no sono do gesto de enrolar
o fio .
Quando aprendi a ser poente jà não havia
céu .
Quando quis anoitecer tudo era luz e assim
me condeno em livre vício ; no mais derradeiro
eu sò vislumbro um inicio
In Mia Couto
de bruços sobre o verão
eu deixei o sol na extensão do tempo
molhando , quase líquido o dia afundava
nas fundas águas do Índico
a terra se ia estar nua
lembrando , distante , seu parto
de carne e lua
2. Não o pássaro ; era o céu
que voava o ombro da terra
amparava o dia a luz tombava
ferida pingando com um pulso
suicida minhas ocultas asas
In Mia Couto
Nasceu na cidade da Beira , Moçambique ,
em 1955 , Poeta , Jornalista , com estilo
muito priori , já foi traduzido em vários idiomas ,
dedica - se tambèm ao Teatro e a Biologia
e um pequeno pássaro e depois de um longo tempo
eu perdi - te de vista meus braços são dois espaços
enormes os meus olhos são duas garrafas de vento
e depois eu conheço - te de novo num rua isolada
as minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços a tua figura
era o que me lembro da cor do jardim
In António Maria Lisboa
franjado de túmulos numa mão aberta eu num barco
a remos a atravessar a janela da pirâmide com um corpo
esguio e azul coberto de escamas eu na praia de um vento
de agulhas com um cavalo triângulo enterrado na areia
eu na noite com um objecto estranho na algibeira
trago - te brilhante estrela sem destino coberto de musgo
In António Maria Lisboa
as tuas mãos inúteis , a tua boca verde
eu falo somente dos relógios caídos , dos
autocarros eu falo somente dos pès vermelhos
eu falo ... eu falo ... eu falo
no vegèsimo século das nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes
sim , è verdade , os cabelos loiros então , meia -noite !
Senhora , S me dà licença , este dia acabou , por este
dia a criança è porca , è inútil , muito obrigado
In António Maria Lisboa
nos ouvidos e ver e ver - te , ò menina do quarto
vermelho era ver a tua bondade , o teu olhar terno
de borboleta no infinito e toda essa sucessão de
pontos vermelhos no espaço em que tu eras uma
estrela que caiu e incendiou a terra là longe numa
fonte cheia de fogos - fàtuos
IN António Maria Lisboa
Poeta Surrealista Português
Nascido em Lisboa , 1 de Agosto de 1928
+ Lisboa , 11 de Novembro de 1953
era uma rosa encarnada aberta nesse momento
era uma boca fechada sob a mordaça de um lençol
era afinal quase nada , e tudo parecia imenso !
imensa a casa perdida no meio do vendaval ;
imensa a linha da vida no seu desenho mortal ;
imensa a despedida , a certeza do final
era uma haste inclinada sob o capricho
do vento era a minha alma dobrada , dentro do teu
pensamento era uma igreja assaltada , mas que cheirava
a incenso era afinal quase nada , e tudo parecia imenso !
imensa a luz proibida no centro da catedral ;
imensa , a voz diluída além do bem e do mal ;
imensa por toda vida uma descrença total !
In David Mourão Ferreira
em vez dos corpos que somamos
seriam nossos corpos ora mais ora
menos que dois corpos que escorpião
de sùbito estes corpos quando um espelho
reflecte os nossos corpos e num sò corpo
feito os dois corpos ao mesmo tempo somos
quatro corpos não indagues agora se o meu
corpo se contenta sò no teu corpo ou se busca
atingir todos os corpos que no fundo residem
num sò corpo mas indaga sem sem pausa além
do corpo finito infinito destes corpos
In David Mourão Ferreira
amarrotada , da frescura que vem depois do sol ,
quando depois do sol não vem mais nada ...
Olho a roupa no chão ; que tempestade !
Há restos de ternura pelo meio , como vultos
perdidos na cidade onde uma tempestade sobreveio ...
Começas a vestir - te lentamente , e è ternura tambèm
que vou vestindo , para enfrentar là fora aquela gente
que da nossa ternura anda a sorrir ... mas ninguém sonha
a pressa com que nòs as despimos assim que estamos sòs !
In David Mourão Ferreira
poeta , ficcionista , tradutor , dramaturgo ,
ensaísta , cronista , critico literário , conferencista ...
Considerado um dos maiores poetas contemporâneo
português do século xx nascido em Lisboa a 24 .02 . 1927
+ Lisboa , 16 . 06 . 1996
abraços , são apertados nòs que dàs nos laços que
prendem nossas ditas vitalícias deixa gabar os deuses
comas delícias que desfrutam nos etéreos paços , que
estas que nòs gozamos por espaços são , Marília , não
são fictícias ideias um pouco finge , sò um prazer imortal
que não se altera as faces divinas com rosas tinge ; se o
chão que os teus olhos reverbera , se a ternura sem par que
a mim se cinge durasse um dia , o sol sua luz perdera
In Francisco Binge
na contraria face da minha
solidão eu amei - te e acariciei
o teu imperceptível crescer como
carne da lua nos nocturnos lábios
entreabertos e amei - te sem o saber
amando - te de te procurar amando - te
de te inventar no contorno do fogo desenhei
o teu rosto e para te conhecer mudei de corpo
troquei de noites juntei crepúsculo e alvorada
para me acostumar a tua intermitente ausência
ensinei as timbilas a espera do silêncio
In Mia Couto
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo
para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram no minuto
em que talhei o sabor do sempre
para ti dei voz às minhas mãos
abri os gomos do tempo assaltei
o mundo e pensei que tudo estava
em nòs sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos eu descia em teu
peito para me procurar e antes que
a escuridão nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos vivendo de um
sò amando de uma sò vida
In Mia Couto
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus incessìveis frutos
para que prove a tua água
e repouse na tua fronte
debruça o teu rosto sobre
a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para anunciada visita
atè que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo
In Mia Couto
nos teus lábios
a raiz dos sangue
procura suas pétalas
a tua beleza
è essa luta de sombras
è o sobressalto da luz
num tremor de água
è a boca da paixão mordendo
o meu sossego
in Mia Couto
enquanto me adio servente de danos e
enganos vou perdendo morada na súbita
lentidão de um destino que vai sendo escasso
conheço a minha morte o seu lugar esquivo
seu acontecer disperso agora que mais me
poderei vencer ?
in Mia Couto
nossa maquina vivente , que fazes nossa
fulgente como eléctrico gás , subtil flama ;
a nossa construção por ti se inflama ;
por ti o nosso sangue gira quente ;
por ti as fibras tem vigor potente ,
teu vivo ardor por ela se derrama
tu , fogo animador , nos vigorosas ,
e a maneira de um volte-jante rio ,
por todo o nosso corpo te deslizas
o homem , sò por ti tem força e brio
mas , se tu o teu giro finalizas , quando
a chama se apaga ele cai frio
in Francisco Bingre
nem fim , na majestade que no trono da eterna
divindade tens o mundo num dedo dependurado ;
tu estavas em ti , não foste nado , o teu ser era a tua
imensidade , tu tiveste por berço a eternidade , tu ,
sem tempo , em ti mesmo eras gerado !
tu ès um fogo que arde sem matéria , tu ès a perpétua luz ,
que não desmaias fulgindo , sem cessar , na sala etèrea !
tu ès um mar de amor , que não tem praia trovão assustador
da esfera aérea , rei de um reino imortal , que não tem raia
in Francisco Binge
animador do autor Divino , deste nosso subtil
moto continuo composto , onde Deus pôs sua
ciência !
tu tens , ò ar , a excelsa preeminência de ser
exalação do abafo trino , tu sustens , sem cair ,
o homo a pino ;
sem ti tem sempre pronta a decadência tu as ardentes
febres lhe mitigas nesta do mundo , trabalhosa lida ,
nesta terra sem cessar fatigas tu ès sustentáculo da vida
porém quando do corpo te desligas , lhe dàs , com dor ,
eterna despedida
in Francisco Binge
na boca um do outro por isso è que nos desfazemos no arco do verão , no pensamento da brisa , no sorriso , no peixe , no cubo , no linho , n...