quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Estamos a morrer

na boca um do outro

por isso è que nos desfazemos

no arco do verão , no pensamento

da brisa , no sorriso , no peixe , no

cubo , no linho , no mosto aberto


- no amor mais terrível que a vida
 

Beijo o degrau


 e o espaço o meu desejo traz o perfume da tua noite

murmuro os teus cabelos e o teu ventre , ò mais nua


e branca das mulheres correm em mim o lacre e a cânfora ,

descubro tuas mãos , ergue - se tua boca ao círculo do meu


ardente pensamento onde està o mar ? aves bêbadas e puras

que voam sobre o teu sorriso imenso em cada espasmo eu

morrerei contigo


In Herberto  Helder

Peço ao vento ;

traz do espaço a luz inocente dos urzes , um silêncio ,

uma palavra ; traz da montanha um pássaro de resina ,


uma lua vermelha oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos , casa de madeira do planalto ,


rios imaginados . espadas , superstições , cânticos , coisas maravilhosas da  noite ò meu amor em cada

espasmo morrerei contigo .


In Herberto Helder

 

De meu recente coração

a vida inteira sobe , o povo renasce , o tempo

ganha a alma o meu desejo devora a flor do


vinho , envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculo

e crateras ò pensador Carola de ninho , mulher que a fome


encanta pela noite equilibrada , imponderável - em cada espanto

eu morrerei contigo


In Herberto Helder
 

à alegria diurna

descerro as mãos perde - se entre as nuvens

e o arbusto   o cheiro acre e puro da tua entrega


bichos inclinam - se para dentro do sono , levantam - se rosas respirando contra o ar a tua voz canta o horto


e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo beijarei em ti a vida enorme , e

em cada espasmo eu morrerei contigo


In  Herberto Helder
 

Dai - me uma mulher tão nova como a resina

e o cheiro da terra . Com uma flecha em meu flanco , cantarei .

E enquanto manar da minha carne uma videira de carne uma


videira de sangue , cantarei seu sorriso ardendo suas mamas

de pura substância , a curva quente dos cabelos , beberei sua 


boca para depois cantar a morte e a alegria da morte .


In Herberto  Helder
 

Cantar ?

Longamente cantar , uma mulher com quem beber e morrer , quando fora se abrir o instinto da noite e uma


ave atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas - seu corpo arderá imensamente sobre os meus olhos palpitantes


Ele imagem vertiginosa e  alta de um certo pensamento de alegria e de impudor


Seu corpo arderá para mim sobre um lençol

mordido por flores com água


In Herberto Helder
 

Deixai - me uma jovem mulher

com sua harpa de sombra e seu arbustre de sangue

com ela cantarei a noite , dai - me uma folha viva


de erva , uma mulher seus ombros beijarei , a pedra

do pequeno sorriso de um momento mulher quase


incrida , mas com gravidade de dois seios , com peso

 lùbico  e triste da boca seus ombros beijarei


    In Herberto Helder
 

Noite de Amor

mimosa noite de amor ,

mimoso leito de flores .

mimoso lânguidos ais !


vergônteas débil ainda ,

tremia !


lua tão linda , lembra - me

ainda ... jamais !


aquela dália mimosa , aquele

botão de rosa dos lábios dela ... Senhor !


murcham ; mas como a lua , passava a nuvem :

« Sou  teu » !

reverdiciam de amor !


e aquela estátua de neve como è que o fogo conteve

que não a vi descoalhar ?


ondas de fogo uma a uma naquele peito de espuma

eram as ondas do mar !


como os seus olhos me olhavam , como nos olhos se apagam ,

e se acendiam depois !


como è que ali confundidas se não trocaram as vidas e os corações

de nòs dois !


mimosas noites de amores , mimoso leito de flores , mimoso lânguidos

ais !


vergôntea  débil ainda , tremia ! lua tão linda , lebra - me ainda ... já mais !


In João Deus
 

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Exílio

Quando a pátria que temos

não a temos perdida por silêncio

e por renúncia atè a voz do mar

se torna exílio e a luz que nos rodeia

è como grades


In Sophia Andresen 
 

De um amor morto

fica um pesado quotidiano

onde os gestos embarram

ao longo do ano .


De um amor morto

não fica nenhuma memória

o passado se rende o presente

o devora e os navios do tempo

 agudos e leves os levam embora


Pois um amor morto não deixa em nòs

um retrato de infinita demora è apenas

um facto que a eternidade ignora 


In Sophia Andersen
 

Sua Beleza

sua beleza è total

tem a nítida esquadria


de um Mantegna

porém com um Picasso de repente


desloca o visual

seu torso lembra o respirar


da vela seu corpo è solar

e frontal sua beleza à força de ser bela


promete mais do que prazer promete

um mundo mais inteiro e mais real


como pàtria do ser 


IN  Sophia Andresen
 

As pessoas sensíveis não são capazes de matar galinhas

porém são capazes de comer galinhas

o dinheiro cheira a podre e cheira a roupa


do seu corpo aquela roupa que depois da chuva

secou sobre o corpo porque não tinha outra


o dinheiro cheira a podre e cheira a roupa que depois

do suor não foi lavada porque não tinha outra


« Ganharás  o suor dos outros ganharás o pão »

ò vendilhões do templo

Ò construtores de grandes estátuas balofas e pesadas

Ò cheios de devoção e de proveito perdoai - lhes Senhor


porque eles sabem o que fazem
 

Quando

o meu corpo apodrecer e eu for morto

continuará o jardim , o céu e o mar ,


e como hoje hão - de bailar as quatro

estações a minha porta .


Outros em Abril passarão no pomar

em que eu tantas vezes passei


haverá longos poentes sobre o mar ,

outros amarão as coisas que eu amei


será o melhor brilho  a mesma festa ,

será o mesmo jardim à minha porta ,


e os cabelos doirados da floresta ,

como se eu não estivesse morto .


In Sophia Andresen
 

Assim o Amor

espantado meu olhar

com teus cabelos

espantado meu olhar 

com os teus cavalos

e grandes praias fluídas

avenidas tardes oscilam demoradas

e um confuso rumor de obscuras vidas 

e o tempo sentado no limiar dos campos

 em seu fuso sua faca seus novelos em 

vão busquei eterna luz precisa


Sophia de Mello Breyner Andresen

In Obra Poética
 

Com fùria e raiva

acuso o demagogo e o seu capitalismo

das palavras pois è preciso saber que a


palavra è sagrada que de longe muito longe

um povo a trouxe e nela pôs a sua alma confiada


de longe muito longe desde o inicio o homem soube

de si pela palavra e nomeou a pedra a flor a água e


tudo emergiu porque ele disse com fúria e raiva acuso

o demagogo que se promove à sombra da palavra e da


palavra faz poder e jogo e transforma as palavras em moeda

como se fez com o trigo e com a terra


In Sophia Andresen 
 

Terror de amar

num sitio tão frágil como o mundo

mal de te amar neste lugar de imperfeição


onde tudo nos quebra e emudece onde tudo

nos mente e nos separa


que nenhuma estrela queime o teu perfil

que nenhum deus se lembre do teu nome


que nem o vento passe onde tu passas

para ti eu criei um dia puro livre como


o vento e repetido como o florir das ondas

ordenadas


Shophia de Mello Breyner Andresen

In Obra Poética
 

Noite Perdida

não te lamento ;

embarco a vida

no pensamento ,

busco a alvorada

do sonho isento ,

puro e sem nada ,

- rosa encarnada

intacta ao vento

noite perdida ,

noite encontrada ,

morta , vivida e ressuscitada ...

( asas da lua quase parada , mostra - me

     a sua sombra escondida , que continua

     na minha vida num chão profundo ! raiz prendida  a um outro mundo . )


rosa encarnada do sonho isento , muda a alvorada que o pensamento deixa

confiada ao tempo lento ... minha partida , minha chegada , è tudo vento ..

ai da alvorada ! noite passada , noite encontrada ...


In Cecìlia Meireles 
 

The End

Que sossego já não há mais deuses nem princesas

poder dormir e acordar relaxado e sentir o esplendor


do céu e beijar as estrelas sem barreiras sem ter que

pensar em mais nada nem em mais ninguém com


a nossa mente livre liberta para amar intensamente

a quem nos mereça sem restrições sentindo o amor


nas nossas entranhas com fervor não pensar em mais ninguém para além de nòs próprios a dedicação total a pessoa amada na


essência do próprio amor que sossego poder acordar viver e morrer

 em paz em harmonia com o universo sendo nòs próprios o nosso Deus !


 fausto fonseca

poetzi 0 . blogspot.com

 In  Palavreado

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Canção para a Paula

chegarei com as árvores meu amor ao som do sangue

às catedrais do puro gesto com o grito e as aves matinais


dentro das silabas ao breve cume da espuma mãos nas mãos

chegarei com as espadas areia verde  dò planície ao tutano


meu amor da fome com os frutos nos teus olhos amante vento

à espera ao sexo nuclear do mundo nervo a água chegarei chegarei


nas manhãs suadas da voz meu amor liberta à nocturna onda do poema

com as aves dentro do grito ou sò marítimo eco à raiz exígua dos cristais


 morte a morte chegarei chegarei ao pè do silêncio que vaza meu amor nos rios

remo a canto deslumbrados contigo ao principio chegarei


In  Luís Carlos Patraquim
 

Natureza Viva

que o fogo avermelhe o teu desejo , ovo granular , constelação ;

e a polpa verde - escura , húmida ou queda arborizando - se


dentro dos ossos , te envolva , como estirada jaz a pele da infância


In Luís Carlos Patraquim

 

Reminiscência

as vezes o exílio è uma árvore aberta

na imponderável noite e nada espreita


a estrada longa fonte de olhar principia

como um homem multidões ao vento


a terra enxague o grito arável


    In Luis Carlos Patraquim
 

A voz e o vento

com palavras faço a voz e o vento

que se viajam e são insistentes

desejos a lucilar sobre a pele

morena de girassòis filtrando

teu rosto seios paisagem nua de 

ventre com palavras a voz do que 

faço estes dias infensos



In Luis Carlos Patraquim
 

Acontecimento

sobre as espigas trémulas os pássaros migram

para os meridianos virgens do eu rosto no vento

a densidade da boca


In  Luís Carlos Patraquim

Poeta das vozes mais inovadoras

da poesia Moçambicana
 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Do tempo ao coração

e volto a murmurar do cântico de amor gerado na Sumária às novas

Europutas de meio que me dàs ao muito que não dou mas que sempre


conservo entre as coisas mais puras de uma Genebra a mais num bar de

Amesterdão e não perder o pè numa praia da Grécia de tantas mãos que nos


passam pelas mãos e tão poucas que são as que nunca se esquecem de ter visto

o começo e o fim da Via Àpia de ter atravessado o muro de Berlim de outros


muros que não aparecem no mapa de outros muros que sò aparecem aqui ao barro deste céu que te molesta os ombros  ao sopro deste céu que vem ao nosso encontro quando sabe que nòs precisamos dele de pertinaz presença

e da longevidade do corvo do chacal do louco do Eunuco ao rouxinol que morre

em plena madrugada à rosa que adormece em caules de um minuto de que foi noutro

tempo a saúde no campo à lepra que nos ròi a paisagem bucólica do tempo ao coração

minado pelo cancro dos rins ao infinito incubado na cólera do tempo ao coração mas

com pausa na pele como « Roma by night » entre dois aviões como passar o verão num

vegetal aberta como dizer que não que já não somos  dois dos rins ao infinito a este que 

não outro ao que rola nos rins ao que vai rebentar - te na câmara blindada e nocturna do

ùtero e nos transfere o fim para um pouco mais tarde da curva de entretanto à entrada do

poço soletrar em mim a ler nas tuas mãos como è rápido lento recto e sinuoso o percurso

que vai do tempo ao coração


IN  David  Mourão Ferreira
 

A secreta viagem

No barco sem ninguém , anónimo e vazio , ficamos

nòs dois , parados de mãos dadas ... como podem


sò dois governar um navio ? melhor è desistir e não

fazer nada ! se um gesto sequer , de sùbito esculpidos,


tornamo - nos reais , e de madeira , à proa ... que figuras  de lenda ! olhos vagos  perdidos ... por entre


nossas mãos , o verde mar se ecoa ... aparentes senhores

de um barco abandonado nòs olhamos , sem ver a longínqua


miragem ... aonde iremos ter ? com os frutos e pecado se justifica ,

enflora , a secreta viagem ! agora sei que ès tu quem me fora indicada


o resto passa , passa alheio nos meus sentidos desfeitos num rochedo

ou salvos na enseada , a eternidade è nossa , em madeira esculpidos !


In David Mourão Ferreira
 

Praia do Esquecimento

Fujo da sombra ; cerro os olhos ; não há nada

a minha vida nem consente rumor de gente


na praia desolada


apenas decisão de esquecimento ;

mas sò neste momento eu a descobri


como um fruto rubro de quem sem

sabe - lo , me sustento


In  David Mourão Ferreira
 

Jà o silêncio não è de oiro ; è de cristal ;

redoma de cristal este silêncio imposto .

Que lívido museu ! velado sepulcral


ai quem se atreve a mostrar bem o rosto !

um hálito de medo embaciado o vidro


dà - nos um ar de fantasmas ou fetos

na saliente armadura , ninguém sonha sequer


sonhos completos tão mal consegue o luar insinuar - se

 em nòs que a própria voz do mar segue o risco de um


disco ... não cessa de tocar , não cessa a sua voz mas ninguém

pretende experimentar o risco !


In David Mourão Ferreira
 

Não saberei nunca dizer adeus

afinal , sò os mortos sabem morrer

resta ainda tudo , sò não podemos ser


talvez o amor , neste tempo seja ainda cedo

não è este sossego que eu queria ,


este exílio de tudo , esta solidão de todos 

agora não resta de mim o que seja meu


e quando tendo o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca


nenhuma palavra alcança o mundo , eu sei

ainda assim escrevo


In Mia Couto
 

Fui sabendo de mim

por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim


com o mistério de serem poucos

e valerem sò quando os perdia


fui ficando por umbrais a quem do passo

que ousei e vi a árvore morta e sube que


mentia


In Mia Couto


Solidão

Aproximo - me da noite

o silêncio abre os panos escuros


e as coisas escorrem por óleo escuro

e espesso


Esta deveria ser a hora em que me recolheria

como um poente no bater do teu peito mas a


solidão entra pelos meus vidros e nas suas enlutadas

 mãos solto o meu delírio


è então que surges com os teus passos de menina

os teus sonhos arrumados com duas tranças nas costas


guiando - me por um corredor infinito e regressas aos espelhos

onde a vida te encarou mas os ruídos da noite trazem sua esponja


silenciosa e sem luz e sem tinta o meu sonho resigna longe  os homens

afundam - se com o caju que fermenta e a onda da madrugada demora - se


de encontro às rochas do tempo


In Mia Couto


 

Ser , parecer

entre o desejo de ser e o receio de parecer

o tormento da hora cindida na desordem


do sangue a aventura de sermos nòs restitui - mos

ao ser que fazemos de conta que somos


In Mia Couto
 

domingo, 21 de novembro de 2021

Tardia

Quando quis ser fruto fui fome ,

não mais que areia de um chão


sem cio .


Quando sonhei ser pano fui agulha .

E morri no sono do gesto de enrolar 


o fio .


Quando aprendi a ser poente jà não havia

céu .

Quando quis anoitecer tudo era luz e assim


me condeno em livre vício ; no mais derradeiro

eu sò vislumbro um inicio


In Mia Couto

 

Quissico

1. Deixei o sol na praia de Quissico

de bruços sobre o verão


eu deixei o sol na extensão do tempo

molhando , quase líquido o dia afundava


nas fundas águas do Índico

a terra se ia estar nua


lembrando , distante , seu parto

de carne e lua


2. Não o pássaro ; era o céu

que voava o ombro da  terra


amparava o dia a luz tombava

ferida pingando com um pulso


suicida  minhas ocultas asas


In Mia Couto


Nasceu na cidade da Beira , Moçambique ,

em 1955 , Poeta , Jornalista , com estilo

muito priori , já foi traduzido em vários idiomas ,

dedica - se tambèm ao Teatro e a Biologia
 

Z

as formas ,as sombras , a luz que descobre a noite

e um pequeno pássaro e depois de um longo tempo


eu perdi - te de vista meus braços são dois espaços

enormes os meus olhos são duas garrafas de vento


e depois eu conheço - te de novo num rua isolada

as minhas pernas são duas árvores floridas


os meus dedos uma plantação de sargaços a tua figura

era o que me lembro da cor do jardim


In António Maria Lisboa
 

Poema do começo

eu num camelo a atravessar o deserto com um ombro

franjado de túmulos numa mão aberta eu num barco


a remos a atravessar a janela da pirâmide com um corpo

esguio e azul coberto de escamas eu na praia de um vento


de agulhas com um cavalo triângulo enterrado na areia

eu na noite com um objecto estranho na algibeira


trago - te brilhante estrela sem destino coberto de musgo


In   António  Maria Lisboa
 

Varech

eu estimo sobre tudo os teus olhos incolores

as tuas mãos inúteis , a tua boca verde


eu falo somente dos relógios caídos , dos 

autocarros eu falo somente dos pès vermelhos


eu falo ... eu falo ... eu falo

no vegèsimo  século das nuvens são árvores


e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

sim , è verdade , os cabelos loiros então , meia -noite !


Senhora , S me dà licença , este dia acabou , por este

dia a criança è porca , è inútil , muito obrigado


In  António Maria Lisboa


 

H

Sei que dez anos nos separam de pedras e raìzes

nos ouvidos e ver  e ver - te , ò menina do quarto


vermelho era ver a tua bondade , o teu olhar terno

de borboleta no infinito e toda essa sucessão de


pontos vermelhos no espaço em que tu eras uma

estrela que caiu e incendiou a terra là longe numa


fonte cheia de fogos - fàtuos


IN António Maria Lisboa

Poeta Surrealista Português

Nascido em Lisboa , 1 de Agosto de 1928

+ Lisboa , 11 de Novembro de 1953
 

Noite apressada

era  uma noite a apressada depois de um dia tão lento

era uma rosa encarnada aberta nesse momento


era uma boca fechada sob a mordaça de um lençol

era afinal quase nada , e tudo parecia imenso !


imensa a casa perdida no meio do vendaval ;

imensa a linha da vida no seu desenho mortal ;


 imensa a despedida , a certeza do final

era uma haste inclinada sob o capricho


do vento era a minha alma dobrada , dentro do teu

pensamento era uma igreja assaltada , mas que cheirava


a incenso era afinal quase nada , e tudo parecia imenso !

imensa a luz proibida no centro da catedral ;


imensa , a voz  diluída além do bem e do mal ;

imensa por toda vida uma descrença total !


In David Mourão  Ferreira
 

O corpo os corpos

o teu corpo o meu corpo

em vez dos corpos que somamos


seriam nossos corpos ora mais ora

menos que dois corpos que escorpião


de sùbito estes corpos quando um espelho

reflecte os nossos corpos e num sò corpo


feito os dois corpos ao mesmo tempo somos

quatro corpos não indagues agora se o meu


corpo se contenta sò no teu corpo ou se busca

atingir todos os corpos que no fundo residem


num sò corpo mas indaga sem sem pausa além

do corpo finito infinito destes  corpos


In David Mourão Ferreira
 

Ternura

Desvio dos ombros o lençol , que è feito de ternura

amarrotada , da frescura que vem depois do sol ,


quando depois do sol não vem mais nada ...

Olho a roupa no chão ; que tempestade !


Há restos de ternura pelo meio , como vultos

perdidos na cidade onde uma tempestade sobreveio ...


Começas a vestir - te lentamente , e è ternura tambèm

que vou vestindo , para enfrentar là fora aquela gente


que da nossa ternura anda a sorrir ... mas ninguém sonha

a pressa com que nòs as despimos assim que estamos sòs !


In  David Mourão Ferreira

poeta , ficcionista , tradutor , dramaturgo ,

ensaísta , cronista , critico literário , conferencista ...

Considerado um dos maiores poetas contemporâneo

português do século xx nascido em Lisboa a 24 .02 . 1927

+ Lisboa , 16 . 06 . 1996
 

Os teus beijos ,

meu bem , tuas caricias , teus afagos , teus íntimos

abraços , são apertados nòs que dàs nos laços que

prendem nossas ditas vitalícias deixa gabar os deuses

comas delícias que desfrutam nos etéreos paços , que

estas que nòs gozamos por espaços são , Marília , não

são fictícias ideias um pouco finge , sò um prazer imortal

que não se altera as faces divinas com rosas tinge ; se o

chão que os teus olhos reverbera , se a ternura sem par que

a mim se cinge durasse um dia , o sol sua luz perdera


In Francisco Binge
 

Amei - te sem saberes

no avesso das palavras

na contraria face da minha

solidão eu amei - te e acariciei

o teu imperceptível crescer como

carne da lua nos nocturnos lábios

entreabertos e amei - te sem o saber

amando - te de te procurar amando - te

de te inventar no contorno do fogo desenhei

o teu rosto e para te conhecer mudei de corpo

troquei de noites juntei crepúsculo e alvorada

para me acostumar a tua intermitente ausência

ensinei as timbilas a espera do silêncio


In Mia Couto
 

Para ti

foi para ti que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo

para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram no minuto

em que talhei o sabor do sempre

para ti dei voz às minhas mãos

abri os gomos do tempo assaltei

o mundo e pensei que tudo estava

em nòs sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos eu descia em teu

peito para me procurar e antes que

a escuridão nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos vivendo de um 

sò amando de uma sò vida


In Mia Couto
 

Primeira Palavra

aproxima o teu coração

e inclina o teu sangue

para que eu recolha

os teus incessìveis frutos

para que prove a tua água

e repouse na tua fronte

debruça o teu rosto sobre

a terra sem vestígio

prepara o teu ventre

para anunciada visita

atè que nos lábios humedeça

a primeira palavra do teu corpo


In   Mia Couto
 

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

No teu rosto

competem mil  madrugadas

nos teus lábios

a raiz dos sangue

procura suas pétalas

a tua beleza

è essa luta de sombras

è o sobressalto da luz

num tremor de água

è a boca da paixão mordendo

o meu sossego


in Mia Couto
 

Destino

à ternura pouco me vou acostumando

enquanto me adio servente de danos e


enganos vou perdendo morada na súbita

lentidão de um destino que vai sendo escasso


conheço a minha morte o seu lugar esquivo

seu acontecer disperso  agora que mais me


poderei vencer ?


in Mia Couto
 

Fogo

faisca lumiar da etèrea chama que acendes

nossa maquina vivente , que fazes nossa


 fulgente como eléctrico gás , subtil flama ;

a nossa construção por ti se inflama ;


por ti o nosso sangue gira quente ;

por ti as fibras tem vigor potente ,

 teu vivo ardor por ela se derrama


tu , fogo animador , nos vigorosas ,

e a maneira de um volte-jante rio ,


por todo o nosso corpo te deslizas

o homem , sò por ti tem força e brio


mas , se tu o teu giro finalizas , quando 

a chama se apaga ele cai frio


in Francisco Bingre


 

Deus ,

infinito , ser , nunca criado , sem principio

nem fim , na majestade que no trono da eterna


divindade tens o mundo num dedo dependurado ;

tu estavas em ti , não foste nado , o teu ser era a tua


imensidade , tu tiveste por berço a eternidade , tu ,

sem tempo , em ti mesmo eras gerado !


tu ès um fogo que arde sem matéria , tu ès a perpétua luz ,

que não desmaias fulgindo , sem cessar , na sala etèrea !


tu ès um mar de amor , que não tem praia trovão assustador

da esfera aérea , rei de um reino imortal , que não tem raia


in Francisco   Binge 
 

Ar

vivificante ar , pai da existência , assopro

animador do autor Divino , deste nosso subtil


moto continuo  composto , onde Deus pôs sua

ciência !


tu tens , ò ar , a excelsa preeminência de ser

exalação do abafo trino , tu sustens , sem cair ,


o homo a pino ;

sem ti tem sempre pronta a decadência tu as ardentes

febres  lhe mitigas nesta do mundo , trabalhosa lida ,


nesta terra sem cessar fatigas tu ès sustentáculo da vida

porém quando do corpo te desligas , lhe dàs , com dor ,


eterna despedida


in  Francisco  Binge

 

Estamos a morrer

na boca um do outro por isso è que nos desfazemos no arco do verão , no pensamento da brisa , no sorriso , no peixe , no cubo , no linho , n...