terça-feira, 2 de novembro de 2021

No teu peito de coragem

feito de pedras e cardos há um país de viagem

e vinhos de cada cor verdes maduros bastardos

há uma pedra de cal em cada olhar que respira


há uma dor que já dura desde que dura a mentira

há um muro levantado numa seara madura


verde  mar

verde limão


são os teus olhos de medo

o vento è este segredo que

escreve  em cada manhã


o nome dela  na erva numa folha

numa pedra nos bagos de uma romã


acendo - te uma fogueira nas tuas

mãos acordadas


dou - te flores dou - te laranjeira

dou - te ruas dou - te estradas

dou - te palavras secretas dou - te

coragem e setas dou - te os meus dedos

crispados ponho cravos amarelos à volta

dos teus cabelos


dou - te o meu sangue vermelho e o meu

canto proibido dou - te o meu nome raiz

há muito tempo arrancada


dou - te esta calma guardada nos homens 

do meu país


dou - te a fome do meu canto proibido

dou - te os meus braços em cruz e os

meus pulsos abertos


mas è por outra que vivo


pela liberdade neste país sem olhos

sem boca ( Rui Belo )


Joaquim Pessoa 

in Poema da Resistência

       ( 1968 / 1971 )


 

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